MINI-ARTIGOS SOBRE AS ESPÉCIES

Nesta secção encontram-se mini-artigos sobre as espécies, de forma sucinta e clara, ficamos a conhecer um pouco mais sobre a nossa fauna. Ilustrados com as melhores fotografias da espécie.

AS MINHAS MISSÕES

Ao contrário dos artigos, nas missão explico como consegui fotografar as espécies (ou observar). O que sofri e as peripécias para as conseguir fotografar tranquilamente e sem as perturbar.

TRUQUES E DICAS

Nesta secção poderá encontrar alguns truques e dicas sobre fotografia de vida selvagem e de natureza, desde as técnicas utilizadas na máquina como algumas das técnicas utilizadas no terreno.

ABRIGOS

Para além dos vários truques, existem também alguns abrigos já montados que podemos frequentar em Portugal e outros tantos em Espanha. Serão apenas colocados abrigos que tenha frequentado.

PROJETOS

Os vários projetos que tenho realizado, desde panfletos, livros, workshops, entre outros.

UM MÊS...UMA AVE

A Fundação Calouste Gulbenkian com o apoio científico da Fundação Luis de Molina e da Universidade de Évora apresenta nos jardins da fundação em Lisboa o projeto "UM MÊS...UMA AVE". Todos os meses foi apresentada uma espécie presente nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian. A lista de espécies do primeiro ano está terminada.

Canal Youtube onWILD

Novo canal no youtube destinado apenas a filmagens de vida selvagem. Subscrevam.

Definições Canon 7D Mark II

As definições que utilizo na minha máquina para a fotografia de aves.

sábado, 14 de outubro de 2017

Desabafo II: Cientistas vs Fotógrafos



Por mais do que uma vez me perguntaram se era possível ser um cientista, isto é, um biólogo, e ser um fotógrafo de vida selvagem ao mesmo tempo. Não só e possível como deveria de ser obrigatório! Como cientista (investigador) já participei em inúmeras investigações e lidei com diferentes espécies, desde aves, anfíbios, mamíferos, repteis, peixes, insectos, entre outros. No entanto, tudo o que fazíamos seguia uma série de regras de segurança e bem-estar animal. Em nenhum momento sentimos que o nosso trabalho em prol da ciência viria a alterar profundamente a própria natureza. Os estudos com uma vertente científica permitem avançar no conhecimento que temos sobre as espécies e no final podem contribuir para a sua conservação. Mas onde encaixa a fotografia de vida selvagem? A fotografia de vida selvagem permite divulgar estas espécies e trabalhos ao público que não está habituado a observa-las em estado selvagem ou nalguns casos desconhecendo que tais espécies existem em Portugal e que por isso merecem ser conservadas. A fotografia aliada à ciência pode ainda permitir descortinar alguns pormenores mais difíceis de observar, como variações de plumagem em determinados indivíduos, ou a leitura de anilhas no campo sem ter de recapturar a ave, entre outros pormenores. Então mas porque existe um conflito tão grande entre ambos? Não vou entrar muito neste tema, mas sim concentrar-me numa pequena história que aconteceu recentemente.


Como alguns devem saber existem dois abrigos fotográficos no Parque Ambiental do Alambre. Sendo que a localização dos abrigos e todo o espaço envolvente foi definido por mim, desde a criação dos comedouros, à construção dos bebedouros, e também à procura, transporte e colocação dos poleiros (alguns já removidos por fotógrafos que frequentam os abrigos, algo que falei num outro post: Desabafo de um fotógrafo de vida selvagem). Foi um ano intenso de estudos e testes, de sucessos e fracassos, mas que no final deu origem a um grande espaço. No entanto, por detrás de todo o trabalho sempre existiu um outro intuito, estudo científico. Ao mesmo tempo que os abrigos eram desenhados e montados demos início a um plano de conservação que passava pela monitorização da fauna existente no Parque Ambiental do Alambre. O ano passado começámos a anilhar no Alambre de forma mensal, e este ano de forma mais regular. A anilhagem criou um novo conflito com os fotógrafos: redes vs fotografia.


Numa das últimas sessões de anilhagem tivemos o primeiro grande conflito. Quando um fotógrafo de vida selvagem decidiu ir ao Alambre tirar fotografias. Foi avisado na recepção que tínhamos estado a anilhar, mas não sabiam informar se ainda estávamos ou não a anilhar. Durante as voltas à rede o técnico responsável pela anilhagem naquele dia deparou-se com o fotógrafo de vida selvagem a cortar deliberadamente as redes para soltar as aves, algumas ainda embrulhadas na rede. Ao tomar esta atitude ele danificou material de anilhagem dispendioso e a sua “boa ação” pôs em risco o bem-estar das aves. Sendo que algumas continuavam entrelaçadas nas finas redes.


Esta atitude prova que pode ser impossível a convivência entre cientistas e fotógrafos nos moldes atuais, e que algo terá de ser modificado para permitir que as atividades científicas decorram sem perturbações. Anteriormente falei sobre a atitude de alguns fotógrafos que gostam de mexer nos abrigos à sua maneira, estragando as sessões para os que vierem a seguir, estas atitudes continuam e tem vindo a agravar-se com poleiros removidos e partidos deliberadamente (link). Com todos estes problemas em mente algo terá de mudar nos próximos tempos para os abrigos continuarem a funcionar em pleno.



Respeitem a natureza, respeitem os animais e respeitem os outros fotógrafos e visitantes do espaço.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Missão: Cobra-rateira


Numa visita ao Parque Biológico de Gaia um amigo informou-me que estaria uma grande cobra-rateira (Malpolon monspessulanusa apanhar sol quase sempre no mesmo local. Com a informação dirigi-me até ao local logo após o almoço para tentar a minha sorte. E lá estava ela. Quieta a tomar um belo banho de sol mas atenta a tudo o que a rodeava e passava. Inicialmente tirei-lhe umas fotografias utilizando a 400mm, pois não queria arriscar assusta-la e fiquei sem nenhum registo. Algumas fotografias depois, não muitas pois a 400mm não é propriamente uma excelente objetiva macro, achei que estava na hora de utilizar as “big guns”!!! Ou neste caso, utilizar a “small gun” (macro) e tentar aproximar-me dela.


Inicialmente a sua posição não lhe era nada favorável, e não queria assustá-la demasiado. Fui aproximando-me com calma, enquanto tirava fotografias de vários ângulos. Mas nenhum deles me satisfazia, e também não queria incomodá-la. (In)Felizmente a passagem de um dos tractores assustou-a o suficiente para mudar de posição. Neste caso tentou inicialmente a fuga, colocando a cabeça por entre a vegetação. Ao fim de algum tempo e ela começou finalmente a regressar para o sol e desta vez em posições mais favoráveis.


A cobra-rateira continuou a alterar de posição de tempos para tempos e permitiu-me tirar-lhe uma série de fotografias diferentes. Em nenhuma das situações a cobra tentou atacar-me ou à máquina, preferindo recorrer à fuga como principal mecanismo de defesa.



Muito obrigado pelas informações fornecidas pois permitiram-me obter grandes “shots” deste magnifico animal. Espero que se mantenha por lá, que ninguém lhe faça mal, e que na próxima visita tenha oportunidade de a fotografar novamente.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A Raposa e o silêncio da floresta...



Eis algo que nenhum biólogo (ou fotógrafo) deseja encontrar no campo. Um animal morto, mais propriamente uma raposa. E aqui começa o cerne da questão. Qual a causa de morte do animal em questão? As raposas são espécies “odiadas” por várias razões e muitas vezes consideradas as culpadas por diversos problemas. O facto de serem oportunistas não lhes favorece em nada num ambiente mais citadino, onde qualquer pedaço de comida lhes é útil. Na natureza para além de serem exímias caçadoras cabe-lhes a elas (e a mais algumas espécies) fazer a limpeza dos restos de alimentos que fiquem no campo, mas perto das cidades elas escolhem outras refeições mais simples, desde as galinhas que estão fechadas numa estrutura de metal, até ao lixo que despejamos nos caixotes. E assim passam de úteis, a animais odiados. Odiadas por fazerem o que está na sua natureza, odiadas por desempenharem o seu papel num ecossistema que já foi delas e agora se encontra cheio de casas, quintas, e propriedades, odiadas por apenas tentarem sobreviver num mundo em constante mudança. Na Serra da Arrábida são vários os casos de raposas que se aproximam do ser humano em troca de uma refeição fácil, desconhecendo se do outro lado está um bom ou um mau ser humano.

De regresso à nossa raposa. Enquanto passeava no Parque Ambiental do Alambre (que para quem não conhece fica localizado em plena Serra da Arrábida) logo pela manhã com uma amiga para a realização de algumas fotografias, detetámos o cadáver da raposa num dos caminhos do parque. A princípio pensámos tratar-se de um caso isolado, uma morte natural de um animal que aparentava ser jovem e que teria por isso mais dificuldade em obter alimento. Mas uma análise mais cuidada revelava alguns indícios de que a morte não teria sido natural, nem acidental. Perto do cadáver da raposa encontrámos um pedaço de carne. E aí o problema aumentou. Teria este animal sido envenenado? Hora de regressar ao corpo da raposa e procurar novos indícios. Desde o arranhar das garras no chão onde teria sofrido em agonia até ao último suspiro, aos dejetos ainda colados ao seu pelo, até às mandíbulas esbranquiçadas e expostas. A realidade caiu em mim, estava em pleno Parque Natural da Arrábida e havia encontrado um animal morto possivelmente por envenenamento…


O que se seguiu foram uma série de acontecimentos que vou resumir rapidamente. Em casos de envenenamento é necessário entrar em contacto com o SEPNA (contacto telefónico 213 217 000 ou contactar a linha SOS Ambiente e Território 808 200 520). Uma vez que a morte teria sido por envenenamento, e sabendo que é habitual as pessoas levarem cães e crianças para o parque e a raposa estava num local relativamente perto dos bungalows (e porque eram 8 horas da manhã ainda) decidimos que o melhor seria retirar do campo a carne possivelmente envenenada e o cadáver da raposa para evitar novas mortes. Assim, regressámos ao carro para ir buscar um saco de plástico e umas luvas de látex (para quem anda no campo dão muito jeito nestes casos). Para não carregar o corpo da raposa ao longo do parque, decidimos que seria mais sensato levar o carro até ao local do crime. A raposa estava num saco e a carne noutro saco fechado e selado, quando encontrámos outro animal. Um pisco-de-peito-ruivo, a pouco mais de 2 metros da raposa. Esta nova descoberta apenas aumentou as suspeitas de envenenamento. Chamada a GNR, prestei depoimento e forneci todos os dados necessários. A raposa foi levada para análise, assim como todos os pedaços de carne que encontrámos no local do crime. (quando souber mais novidades informo)




Veneno! Veneno! Veneno! Aqui está o grande problema, é que o veneno não tem olhos, não tem um alvo, não tem um aviso. É utilizado para eliminar a vida selvagem, mas não sendo seletivo pode eliminar mais do que desejamos. Acredito que o alvo sejam os carnívoros presentes no parque e que podem prejudicar agricultores que tenham criações, mas neste caso um pisco-de-peito-ruivo morreu desnecessariamente. Não sabemos se a carne foi colocada ali ou se foi a raposa que a trouxe para ali, e uma dúvida permaneceu no ar: será que há mais carne envenenada algures pelo parque? E se em vez de a raposa ser encontrada por dois biólogos tivesse sido encontrada por um cão? Ou por uma criança? Que pela sua curiosidade tivesse mexido no seu pelo, na carne ou noutro pedaço infetado sem utilizar as devidas proteções (luvas). Como teria sido o desfecho? Teríamos manchetes de jornais? O veneno é uma arma perigosa e que pode matar quem entrar em contacto com ele. É importante que as pessoas compreendam o seu perigo antes de pensarem sequer em ir à loja comprá-lo. Em Portugal encontra-se a decorrer um projeto LIFE+ Life Against Poison, para o qual já fiz várias ações de voluntariado, que procura combater a utilização de veneno em Portugal. Podem encontrar mais informações no website da quercus (clickar aqui).